segunda-feira, 25 maio , 2026

Reforma psiquiátrica: um desafio complexo e urgente para a juventude

Henrique Costa Brojato
diretor do Centro Social Marista Propulsão, psicólogo, especialista em Psicopatologia Fenomenológica e em Antropologia Cultural

Aristeu tem 15 anos. Possui histórico de internamento psiquiátrico de quatro meses, em decorrência do uso problemático de drogas. Depois de sair do internamento, ele foi encaminhado a uma comunidade terapêutica como estratégia para manter sua aparente abstinência do uso de drogas. Após do primeiro mês, Aristeu quer sair daquele lugar, que opera pela lógica de afastamento total do interno, impedindo de ter acesso a tecnologias e a outros lugares que ele gostaria de conhecer. Nesse meio tempo, Aristeu é encaminhado à uma unidade que atua com adolescentes em situação de uso abusivo de álcool e outras drogas, para que possa ter sua rede de atendimento ampliada, além de poder sair de seu internamento três vezes na semana. Aristeu quer ter contato com sua antiga companheira, mas não encontra reciprocidade no desejo da moça. Existe um filho de seis meses de vida que é fruto dessa relação, que provoca ainda mais saudades nele. Tudo o que ele queria naquele momento era um trabalho, terminar seus estudos, cuidar de sua família.

Denise tem 17 anos. Há pelo menos cinco, encontra-se em uma unidade de acolhimento institucional para meninas, em decorrência de situações de risco vivenciadas durante sua infância e parte de sua adolescência. Não tem contato com a família nem demonstra interesse. Ela também conta que nenhum adolescente em situação de acolhimento deveria vivenciar tais situações de violação de direitos, em um espaço que, em tese, deveria proteger. Palavras dela.

Depois do desabafo, ela mostra sua nota em uma prova de física: tirou 10, com louvor. Em um contexto em que a maioria dos adolescentes não frequenta a escola, sem dúvidas esse é um evento que suscita diversos afetos, e a alegria é o principal deles. Ela sorri e se encaminha à atividade de leitura preparada para aquele dia de sol, em pleno outono curitibano.

Alberto tem 17 anos. Frequentou a unidade por muito tempo, e há tempos não aparece para o atendimento. Este ano completa 18 anos e desperta dúvidas e incertezas sobre sua vida; talvez a única certeza que possui é a de que precisa seguir outro caminho, diferente desse que segue agora, mas que não tem forças para trilhá-los. Tem dias que chega tomado por um sofrimento declarado em palavras ou em agressões às paredes, portas, pessoas, que em alguns momentos era contornado pelo abraço da equipe, em outros pelos seus pães de queijos nos cafés da tarde. “Onde está o polvilho?”, ele perguntava. Hoje me pergunto: onde ele está?

As situações descritas são fictícias e representam algumas das vivências que adquiro no Centro Social Marista Propulsão, que atua na inserção social de adolescentes de 14 a 18 anos, com histórico ou em situação de uso problemático de álcool e outras drogas. Temos nesses três relatos a possibilidade de reflexão sobre quais os desafios que a Reforma Psiquiátrica nos aponta hoje no contexto de políticas públicas no Brasil.

O lema “Por uma sociedade sem manicômios” marcou o Congresso de Trabalhadores de Serviços de Saúde Mental na cidade de Bauru, interior de São Paulo, no dia 18 de maio de 1987. Esse dia é considerado o marco da Luta Antimanicomial no Brasil, visando ao fim dos hospitais psiquiátricos, substituindo-os por uma rede comunitária de atenção psicossocial, que promova cidadania às pessoas com transtornos mentais. Almeja-se, também, a produção de uma sensibilidade cultural em relação ao sofrimento psíquico e ao tema da loucura, desconstruindo estigmas associados ao doente mental.

As histórias de Aristeu, Denise e Alberto são exemplos de adolescentes que passaram por tratamentos psiquiátricos que envolveram internamentos e restrições de liberdade devido à dinâmica do uso problemático de álcool e outras drogas. Em todos os casos, algum tipo de relato é feito em relação às violências perpetuadas nesses espaços; simbólicas, verbais, e, não raro, físicas, que legitimam a violência tão denunciada pela Reforma Psiquiátrica.

Não é simples a solução que se propõe e urgem novas abordagens em saúde mental infanto-juvenil, que possibilitem a inauguração de espaços de cuidado a essa população por meio de dispositivos intersetoriais, que se complementem com as ações em saúde mental na esfera clínica. É necessário também precisar a dimensão do impacto da desigualdade social na saúde mental, marca da realidade brasileira, que traz à cena diversas contradições em nossa sociedade.

Desse modo, acredito que, por meio desta concepção a Luta Antimanicomial, que culmina na Reforma Psiquiátrica Brasileira, se faz possível a ampliação da efetivação de estratégias de atenção e cuidado em saúde mental dessa população. Alguns Aristeus, Denises e Albertos aparecerão em nossa trajetória, e precisaremos atuar na busca de consolidação deste lugar das infâncias e juventudes na política de saúde mental, buscando incidir na promoção e na defesa de seus direitos – por meio da liberdade.

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